Perguntas sobre o livro de Gálatas

Agora que chegamos ao final do estudo do livro de Gálatas, penso ser importante passarmos por algumas perguntas que ficaram sem resposta nesse estudo.

A ideia desse post é que ele vá recebendo, com o tempo, mais conteúdo, de outras dúvidas que os leitores aqui do blog e pessoas que acompanham o canal mandarem.

Essa última licão dessa série de estudos é importante para que você tenha uma visão completa das ideias transmitidas nesse livro.

Vídeo das perguntas sobre o livro de Gálatas

Perguntas gerais não respondidas

Gálatas é incoerente com Tiago 2?

Essa talvez seja a pergunta mais importante que devemos nos fazer ao estudar esse livro. O meu comentário aqui é sobre estas duas passagens:

“Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé de Cristo e não pelas obras da lei, porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.”

Gálatas 2:16

“Vedes, então, que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé.”

Tiago 2:24

Note que Paulo diz claramente que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas Tiago diz o contrário, que o homem é justificado pelas obras.

Apesar de parecer uma contradição clara, se simplesmente considerarmos o contexto do que Tiago está escrevendo, poderemos entender o seu argumento.

Para isso, é inevitável que façamos a leitura de alguns versículos:

“Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé e não tiver as obras? Porventura, a fé pode salvá-lo? E, se o irmão ou a irmã estiverem nus e tiverem falta de mantimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos; e lhes não derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma. Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.”

Tiago 2:14-18

Veja que o argumento de Tiago é que a nossa fé precisa produzir as obras, o que Paulo chama em Gálatas de fruto do espírito. Essas obras que Tiago está comentando são, na minha interpretação, justamente as obras que são produzidas pelo Espírito Santo em nós a partir da nossa fé.

Ele separa então a fé, em dois tipos: a fé viva, que produz as obras, e a fé morta, que é apenas um conceito, uma aceitação na mente, mas que não produz nenhuma mudança de vida. A questão que ele deixa para os leitores é: essa fé morta, pode justificar alguém?

O ponto dele é que a fé, se não for seguida do agir do Espírito em nós, produzindo boas obras, é uma fé morta. Não existe como termos fé viva, verdadeira, e não termos o nosso cárater transformado, não manifestarmos o agir do Espírito. As duas coisas andam juntas, a fé vem primeiro e a ela acaba por produzir boas obras.

Não são as obras que nos justificam, mas a fé que resulta nas obras. Então, quando Tiago diz que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé, ele não está incluindo uma outra forma de justificação. Não existe nenhuma outra forma de nos tornarmos pessoas justas diante de Deus além da fé, exclusivamente da fé. A grande questão é que, se essa fé não se transformar em obras, ela é morta e não serve para nos justificar.

Essa é a grande questão que muitas vezes nos engana: queremos que as obras sirvam para nos justificar, mas isso não funciona. A fé viva nos justifica e produz em nós, através do Espírito, as obras.

Paulo prega contra a circuncisão, mas circuncidou Timóteo

Esta também é uma aparente contradição, mas que é explicada facilmente. Estou comentando sobre os seguintes textos:

“Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão têm virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura.”

Gálatas 6:15

Boa parte do argumento de Paulo aqui em Gálatas foi justamente contra a circuncisão, contra a lei como necessária para a justificação. Porém, vemos em Atos que ele mesmo circuncidou Timóteo:

“E chegou a Derbe e Listra. E eis que estava ali um certo discípulo por nome Timóteo, filho de uma judia que era crente, mas de pai grego, do qual davam bom testemunho os irmãos que estavam em Listra e em Icônio. Paulo quis que este fosse com ele e, tomando-o, o circuncidou, por causa dos judeus que estavam naqueles lugares; porque todos sabiam que seu pai era grego.”

Atos 16:1-3

Numa leitura simples, podemos até mesmo julgar que Paulo fez a mesma coisa da qual acusou Pedro em Gálatas. Porém, quando analisamos melhor o texto, entendemos o motivo pelo qual Paulo circuncidou Timóteo.

A questão aqui não era a justificação de Timóteo, mas sim o testemunho diante dos judeus. Para que a falta de circuncisão de Timóteo não fosse motivo de escândalo, para que eles pudessem ter acesso às sinagogas sem grandes problemas.

Nas viagens missionárias de Paulo, algumas das quais ele fez com Timóteo, Paulo foi para muitas sinagogas. Caso Timóteo, que tinha um pai grego, não se circuncidasse, os judeus poderiam entender que ele havia escolhido viver como gentio.

Paulo fala contra a lei, mas dá várias instruções em suas cartas. Isso não é uma nova forma de lei?

Um exemplo das instruções que Paulo dá, é a seguinte:

“E o que é instruído na palavra reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui.”

Gálatas 6:6

Um outro exemplo, de sua carta para Timóteo:

“Medita estas coisas, ocupa-te nelas, para que o teu aproveitamento seja manifesto a todos.”

1 Timóteo 4:15

Paulo realmente, em alguns versículos dá direções muito precisas sobre o que ele entende que deveria ser feito. Isso não significa que ele estava impondo uma lei para que, por ela, as pessoas fossem justificadas.

A ordem das coisas continua a mesma: a fé justifica, a fé, através do Espírito, produz as boas obras em nossas vidas. Algumas destas coisas que Paulo cita são exemplos de atitudes das pessoas que aceitaram a fé em Cristo.

Os versículos 2 e 5 de Gálatas 6 se contradizem?

Esses dois versículos, pela proximidade deles, são muito interessantes:

“Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo.”

Gálatas 6:2

“Porque cada qual levará a sua própria carga.”

Gálatas 6:5

Afinal, devemos levar as cargas das outras pessoas ou cada um tem a sua e, individualmente, devemos carregá-las?

A primeira coisa que precisamos fazer quando encontramos dois textos que, aparentemente, se contradizem é olhar o contexto. Neste caso é bem simples pois os textos estão próximos:

“Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão, olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo. Porque, se alguém cuida ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Mas prove cada um a sua própria obra e terá glória só em si mesmo e não noutro. Porque cada qual levará a sua própria carga.”

Gálatas 6:1-5

O contexto aqui já nos diz muito e poderíamos inferir o que Paulo está falando. Porém existe ainda uma outra regra de interpretação de contradições que eu gostaria de explicar: quando encontramos textos que, aparentemente, se contradizem, temos como olhar para estes textos de maneira complementar?

Neste caso parece que sim e que, com estas duas regras, conseguimos entender bem o que Paulo está dizendo.

No contexto, Paulo está falando sobre como tratar o irmão que comete um pecado, dizendo que devemos “levar as cargas uns dos outros”. Ou seja, devemos cuidar, com mansidão, das outras pessoas, mesmo que elas tenham cometido algum erro.

No meio disso Paulo diz que devemos olhar por nós mesmos, para que não sejamos tentados. Também diz que devemos tomar cuidado para que não achemos que somos algo que não somos. Que somos pessoas boas, melhores do que aquelas que pecam, pois estaríamos nos enganando. Então, por fim, ele diz “cada qual levará a sua própria carga”, como um reforço, nos dizendo que nós também temos pecados e que, em determinado momento, é possível que estejamos na posição do irmão que pecou.

A Palavra não se contradiz, ela se complementa. Devemos tomar muito cuidado quando analisamos textos, aparentemente, contraditórios, sem considerar seus contextos.

Gálatas 6:10 se contradiz com Gálatas 5:14 e Tiago 2:4?

“Então, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé.”

Gálatas 6:10

“Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Gálatas 5:14

“porventura não fizestes distinção dentro de vós mesmos e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?”

Tiago 2:4

Aqui, novamente, parece que temos uma contradição. Tiago nos ensina que não devemos fazer acepção de pessoas. No capítulo 5 de Gálatas, Paulo nos ensina algo que podemos ver ao longo de diversos textos da Palavra: devemos amar nosso próximo como a nós mesmos.

Então, por qual motivo Paulo está nos ensinando que devemos olhar primeiro para os domésticos da fé?

Na minha interpretação o que ele está dizendo é que devemos fazer o bem, da mesma forma, a todas as pessoas. Porém, devemos estar ainda mais atentos às necessidades daquelas pessoas que caminham conosco, na mesma fé.

Isso não é fazer distinção de pessoas, afinal, jamais conseguiremos ajudar todas as pessoas que precisam. Se não fôssemos, de forma alguma fazer algum tipo de priorização, de organização sobre como vamos ajudar, tentaríamos ajudar todas as pessoas e, no final, não ajudaríamos ninguém.

O que quero dizer é que vamos amar todas as pessoas da mesma maneira. Porém, nos momentos de decisão, onde só podemos ajudar uma ou algumas poucas, priorizaremos aquelas que andam na mesma fé que nós andamos.

Se a justificação é pela fé, qual é a nossa parte na justificação?

Antes de eu começar a falar sobre esse assunto, note que vou tratá-lo de uma maneira muito simples e superficial, para que a maior parte das pessoas possa entender sem ter a necessidade de um curso inteiro de teologia.

A questão é que essa é uma das perguntas que mais divide opiniões na interpretação bíblica. Alguns dirão que, apesar da justificação ser somente pela fé, nós devemos aceitar essa fé, ou seja, temos o direito de rejeitá-la, se essa for a nossa vontade. Aqui entra o conceito de que temos um livre-arbítrio e podemos usá-lo para resistir ao chamado de Deus.

Outras pessoas argumentam que, através de Sua misericórida, Deus fez uma escolha e determinou quais pessoas teriam fé. Nesse entendimento, nossa vontade não interfere e ela é condiciona à vontade eterna de Deus. Ou seja, toda a obra de salvação que acontece conosco é independente da nossa vontade.

Os conceitos aqui, para quem quiser estudar mais são o da graça preveniente e da graça irresistível. Recomendo que você vá estudar isso se, e somente se, estiver preparado para discussões acaloradas e que geram pouco resultado prático.

Perguntas dos leitores

Conforme falei no início do post, conforme novas dúvidas surgirem, vou atualizando este conteúdo aqui.

Para mandar a sua pergunta, você pode usar um dos vídeos dessa série, ou deixar o seu comentário aqui nesse post.

Paz.

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