Estudo do Evangelho de João 10

O capítulo 10 do evangelho de João conta com a quarta declaração “Eu sou” de Cristo. Neste capítulo Ele se apresenta como “o bom pastor”.

O capítulo 10 pode se dividir da seguinte maneira:

  • A parábola das ovelhas (versículos 1 a 6)
  • A explicação da parábola (7 a 9)
  • O papel do ladrão e do bom pastor (10 a 15)
  • Cristo fala sobre o que havia de vir (16 a 18)
  • Os judeus ficam confusos com as palavras de Cristo (19 a 24)
  • Jesus afirma ser um com o Pai (25 a 30)
  • Os judeus tentam apedrejar Jesus (31 a 42)

Vamos analisar alguns aspectos deste texto.

As referências da parábola do bom pastor

“Na verdade, na verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador. Aquele, porém, que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.”

João 10:1-5, grifo meu

Antes de passar às referências, um resumo da parábola é: Jesus é o nosso pastor, nós somos as ovelhas do seu aprisco e só temos salvação e segurança nele. Muitos tentam nos tirar do aprisco e temos que reconhecer a Sua voz para não sermos enganados.

A aplicação prática da parábola é: conheça cada dia mais o Pastor, confie na sua voz. Como vamos fazer para conhecê-lo cada dia mais é algo que cada um vai entender por si mesmo, através do Espírito Santo.

O curral e a porta

Segundo a parábola, podemos entender que existe um curral onde, para podermos acessá-lo de maneira devida, precisamos entrar por uma porta. Quem entra pela porta é apenas o pastor e, provavelmente as ovelhas que são dele.

No versículo 9, já explicando a parábola, Jesus afirma que Ele é a porta. Sendo assim, o curral parece-me uma referência clara à família de Deus aqui na terra, a igreja. Só podemos fazer parte do curral através de Cristo (a porta) e só se entra nesta família se formos suas ovelhas, obedecendo-o e ouvindo a sua voz.

Note que o curral não é uma referência ao local de reunião, a igreja física, mas sim à igreja invisível, às pessoas que fazem parte do corpo de Cristo. Cristo é a porta para fazermos parte do seu corpo.

Ovelhas

Nós somos as ovelhas, aqueles que Cristo comprou com o seu sangue. Assim como no passado era necessário que as ovelhas fossem compradas para pertencerem a alguém, foi necessário que nós fôssemos comprados por um alto preço para fazermos parte do aprisco do Senhor.

A referência da ovelha aqui, como disse, é extensa, podemos falar sobre obediência, sobre conhecer o pastor, ouvir a sua voz, segui-lo e muitas outras características. Esta é uma meditação importantíssima para que entendamos mais profundamente essa parábola.

A outra entrada

Jesus afirma existir uma outra maneira de se subir ao aprisco, e que apenas o ladrão entra por esta parte. Parece ser uma referência à maneira como algumas pessoas tratam a igreja: de maneira leviana, sem entender sua importância espiritual, considerando apenas como um grupo de pessoas. Sinceramente esse é um ponto de vista superficial. Mesmo os teólogos mais estudiosos ainda encontram dificuldade em entender esta referência.

O ladrão

Ele não faz parte do aprisco, mas está próximo, tentando roubar as ovelhas. Imediatamente lembro-me do seguinte texto:

“Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar;”

1 Pedro 5:8

Essa é uma referência ao diabo, que tenta roubar as ovelhas do aprisco, que tenta se infiltrar na igreja para fazer com que aqueles que não estão firmes caiam, desanimem e desistam.

O pastor

Jesus é o pastor, aquele que fala, as ovelhas ouvem e conhecem a sua voz. Ele é aquele que nos guarda do ladrão, que nos protege enquanto estamos no aprisco e que nos guia para fora. Todas estas são referências claras da peregrinação que fazemos nesta vida e da salvação final para onde ele vai nos levar.

No plano geral, este é o cumprimento do que Deus começou no Jardim do Éden quando, com Adão e Eva, começou a formar uma família, um povo com quem Ele pudesse se relacionar. Passou por Abraão e o povo de Israel, que caiu e não entendeu o propósito de Deus, chegando em Jesus, que formaria um aprisco, com quem se relacionaria e os levaria para a vida eterna, com Deus, em comunhão diária.

Onde Adão falhou, Jesus, o nosso pastor, triunfou.

O porteiro

O porteiro é aquele que está guardando a porta do aprisco para deixar passar apenas o pastor. Entendemos então que sua função é não deixar que os que se passam por pastores, mas não são, entrarem no aprisco.

A parábola não é tão clara na referência de quem seria essa pessoa. Alguns vão argumentar que esta é uma referência para Deus Pai, que permite que as ovelhas passem com o pastor ou não. Outros argumentam que este não é o foco da parábola e não deveríamos nos concentrar neste ponto.

Calvino, em seu extenso comentário sobre o evangelho de João, não afirmou ser Deus e não se opôs à ideia. Outros comentaristas não comentam esta referência com tanta clareza.

A voz

A voz é um elemento importante nessa parábola. Jesus ensina que as ovelhas ouvem a voz do pastor e Ele as chama pelo nome. Isso fala de intimidade com o Pastor. Só são ovelhas as que o conhecem, o que me lembra de outra parábola:

“E depois chegaram também as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos. E ele, respondendo, disse: Em verdade vos digo que vos não conheço.”

Mateus 25:11,12

Na parábola das dez virgens vemos o noivo dizendo: “não vos conheço”, ou seja, eram as virgens que não tinham comunhão com o noivo. Assim como as ovelhas que não tem comunhão com o pastor, não conhecem a sua voz e não são realmente suas ovelhas, nós precisamos entender que, para fazermos parte do corpo de Cristo, precisamos ter comunhão com Jesus.

A parte de fora

Esta “parte de fora” é a nossa morada final, o local para onde Jesus está nos levando, na eternidade. Estamos no aprisco, por um tempo, sendo guardados e cuidados pelo nosso Pastor, mas chegará o tempo em que seremos levados para fora, seguindo a voz do pastor.

A parábola conta que o pastor leva as ovelhas para fora do aprisco e que, ao fazer isso, as ovelhas o seguem por conheceram a sua voz. Aqui existem diversas outras passagens que podem ser referenciadas:

“Disse então ele: Vede não vos enganem, porque virão muitos em meu nome, dizendo: Sou eu, e o tempo está próximo. Não vades, portanto, após eles.

Lucas 21:8

Veja como Lucas 21 faz um paralelo claro com a parábola. A situação é a mesma, alguns viriam, se passando por pastores, mas não sendo. As ovelhas conhecem a voz do pastor e por ele são levadas para a parte de fora do aprisco.

O estranho

O estranho é aquele que tenta se passar por pastor, mas não é. Alguns estudiosos vão relacionar esse personagem da parábola com pastores cristãos que não são verdeiros pastores. Eu creio que, mais uma vez, seja uma referência ao nosso inimigo, que tenta nos roubar do rebanho, nos atraindo com tentações.

As verdadeiras ovelhas do Senhor reconhecem que essa oferta não é algo que Deus nos faria e fogem da tentação. Esse é um ponto que também pode ser explorado com mais cuidado, pois existem muitos ensinamentos importantes aqui.

As referências da explicação da parábola

“O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância. Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas … Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor.”

João 10:10-12,16, grifo meu

O mercenário

O mercenário é aquele que finge cuidar das ovelhas, mas está mais preocupado consigo mesmo do que com as ovelhas. Pode ser que falasse sobre os fariseus que, apesar de exercerem um cargo de liderança sobre o povo, não se importavam com eles.

Essa seja, talvez, a referência mais clara aos pastores de hoje que não se preocupam com o rebanho.

O lobo

O lobo é uma outra referência para o diabo, que tenta nos tragar do aprisco, nos levando para a morte. Jesus parece ter usado três referências diferentes para o mesmo personagem, mas resumiu bem quando disse:

“O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.”

João 10:10

O lobo, o ladrão e o estranho me parecem ser representações para o inimigo.

O outro aprisco

Claramente este “outro aprisco” é uma referência para o que Jesus faria ao reunir para si todos numa só família, tanto judeus quanto gentios. Os gentios são o outro aprisco.

Jesus nos fez todos, judeus e gentios, do mesmo rebanho, somos todos igualmente ovelhas do seu aprisco.

Cristo, o bom pastor

Não podemos deixar de falar deste “Eu sou”, como vimos no versículo 14, Jesus assim se chama:

“Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor … Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai.”

João 10:14-16,18, grifo meu

Cristo se identifica como o bom pastor. Isso significa que Ele é aquele a quem devemos seguir, Ele é o nosso pastor, que cuida de nós, nos alimenta, de quem dependemos, que nos livra do lobo e nos salva. A referência do bom pastor podia ser entendida claramente por qualquer pessoa ali ouvindo o discurso, uma vez que a maioria estava familiarizada com o trabalho de um pastor de ovelhas.

Ele é o nosso dono, o nosso Senhor, o nosso protetor e o nosso Salvador. Ser o bom pastor faz com que Ele reúna uma série de atributos em si que nos dão conforto, segurança, temor e esperança.

Vejamos algumas características que Ele mesmo apresenta sobre si como “bom Pastor”:

Conheço as minhas ovelhas

Jesus nos conhece, sabe quem somos, o que fazemos, quais são os nossos pensamentos e intenções. Isso fala sobre cuidado, sobre amor, sobre a repreensão que nos é necessária.

Ele carrega todas as características do verdadeiro pastor da parábola que acabamos de entender.

Elas me conhecem

As ovelhas devem conhecer o pastor. Nós precisamos conhecer Jesus profundamente, cada uma de suas características, o que Ele nos pede na Palavra, como e por qual motivo nos pede.

Conhecer Jesus fala sobre caminhar com Ele, carregar o leve fardo que Ele nos propõe, estar ao seu lado, ouvi-lo ministrar, vê-lo curar, reconhecê-lo como o Cristo, como Senhor e como Salvador. É ter relacionamento de comunhão integral com Ele.

Ao mesmo tempo que hoje em dia podemos fazer isso de diversas formas, não existe uma fórmula mágica sobre como fazer. Não é só ler a bíblia, só ir à igreja, só estudar, só orar. É a reunião de tudo isso e mais, é se submeter verdadeiramente, ouvir a Sua voz, e ser guiado por Ele.

Dá a vida pelas ovelhas

Ele se entregou por nós. Ele deu a sua própria vida para garantir que as ovelhas fossem salvas. Ele não olhou para a sua importância diante das ovelhas ou para a sua posição. Ele, de bom grado, escolheu entregar a própria vida para que as ovelhas fossem poupadas.

É isso o que apenas o bom Pastor faz.

Ele dá a própria vida

Um ponto importante é que a vida de Cristo não foi tomada dEle. Ele mesmo a deu, Ele entregou sabendo da vitória que aconteceria. A vitória da cruz não foi do inferno ou do inimigo, a vitória é de Cristo, que voluntariamente se entregou para nos salvar.

Após isso ele toma de volta sua vida para Si, ressuscita, aparece para muitas pessoas e sobe ao Céu, onde tem o Seu lugar no Trono. Ele não foi assassinado nem derrotado. A morte foi uma parte da trajetória de vitória do nosso Senhor. Ele é soberano sobre nossas vidas, sobre a criação, sobre a morte e sobre tudo o que existe.

Por isso podemos ter esperança e fé nEle, pois Ele é o Deus que vive e reina para todo o sempre. Ele não está morto, Ele não é uma lenda, Ele não é uma história inventada por homens. Ele é o Rei que vive!

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